'Desleixo' de Estados com presídios 'beira o crime contra a humanidade', diz ministro da Justiça
'Desleixo' de Estados com presídios 'beira o crime contra a humanidade', diz ministro da Justiça
Após motim deixar 9 mortos, 14 feridos e 99 foragidos em Aparecida de Goiânia, Torquato Jardim diz à BBC Brasil que Goiás 'não aplicou como devia' repasses federais; em resposta, governador Marconi Perillo afirma que provará ao ministro 'de onde parte o desleixo'.
3 jan 2018
18h14
atualizado em 4/1/2018 às 09h40
Reduzir a violência e integrar presos à sociedade é um "desafio brutal",
diante da "incompetência" e "desleixo" dos Estados e do aumento
exponencial da população dos presídios.
A afirmação acima é do ministro da Justiça, Torquato Jardim. Procurado
pela BBC Brasil para falar sobre o motim ocorrido na segunda-feira,
primeiro dia do ano, em Aparecida de Goiânia - que deixou nove mortos,
14 feridos e 99 foragidos -, ele disse que o governo de Goiás não
"aplicou como devia" os recursos federais do Fundo Penitenciário
Nacional transferidos ao Estado nos últimos anos.
Segundo Jardim, o governo federal tem investido em programas em busca
de soluções para o problema, mas nem todas as administrações estaduais
têm feito a sua parte.
Em 2017, foram repassados pelo governo federal R$ 1,2 bilhão aos 26
Estados e ao Distrito Federal para a construção de novas unidades e
modernização de presídios, diz o ministro.
Mas, até o final do ano passado, foram gastos 4% dessa verba. Cada
governo estadual recebeu R$ 44,7 milhões - Goiás, por exemplo, investiu
R$ 7,7 milhões.
"Goiás, entre 1999 e 2015, recebeu quase R$ 90 milhões de reais. Em
2016, recebeu mais R$ 44 milhões e não fez a aplicação que devia no
sistema penitenciário. Esse motim é reflexo. Falta uma decisão política
clara dos governadores de resolverem a questão presidiária", criticou
Jardim.
Procurado pela reportagem, o governador Marconi Perillo (PSDB) rebateu
as afirmações do ministro. Em nota, ele afirmou que o Estado investiu R$
3 bilhões em recursos próprios no sistema carcerário.
"No dia e hora que ele (Torquato) desejar, vou provar de onde parte o
desleixo. O (investimento da União) é muito pouco, apenas 1% de todo o
nosso investimento."
Para especialistas, a responsabilidade pela crise no sistema carcerário
do pais é, na verdade, de ambas as esferas: estadual e federal.
Professor da Fundação Getúlio Vergas (FGV), Renato Sérgio de Lima,
diretor-presidente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, afirmou que
falta ao Executivo federal capacidade de liderança para coordenar uma
política pública nacional voltada ao sistema prisional. E os Estados,
acrescentou, carecem de capacidade técnica para gerir os presídios.
"Falta coordenação entre as esferas de poder. Todos têm um pedaço de
responsabilidade e ninguém é responsável por tudo. É aquela história de
que a culpa é do síndico, então a culpa acaba recaindo sobre
governadores. Mas isso é em parte injusto."
'Crime contra a humanidade'
O ministro da Justiça vai além nas críticas aos governadores. Segundo
ele, algumas gestões estaduais "sumiram" com a verba do Fundo
Penitenciário Nacional.
"O desleixo dos governos estaduais com o sistema carcerário beira o
crime contra a humanidade. O Funpen (Fundo Penitenciário Nacional)
destinou R$ 1,2 bilhão para os Estados aplicarem em construção e
manutenção dos presídios. E o que eles fizeram com o dinheiro? Em quatro
Estados, o dinheiro sumiu", disse.
Questionado pela reportagem, ele não quis especificar quais Estados
"sumiram" com os recursos. O relatório de gasto das verbas de 2017 do
Funpen mostra que 18 governos movimentaram pequenas fatias da verba,
enquanto oito não usaram nem sequer um tostão.
Pelas regras, os Estados teriam que devolver os recursos, mas o governo
federal publicou uma portaria permitindo que o dinheiro seja gasto até
dezembro de 2018.
"Nós fizemos uma tolerância. Baixei uma portaria autorizando o gasto do
dinheiro até 31 de dezembro de 2018. A partir daí, terão que sofrer as
consequências", disse Torquato Jardim à BBC Brasil.
O secretário de Segurança Pública do Rio Grande do Sul, Cesar Schirmer,
culpa a "burocracia" pelas dificuldades de os Estados usarem os
recursos do Fundo Penitenciário. Segundo ele, uma resolução do
Ministério da Justiça impõe uma série de regras específicas para a
construção de novos presídios.
"Os procedimentos burocráticos não são feitos com a agilidade
necessária. Isso não é só responsabilidade dos Estados", afirmou à BBC
Brasil.
"Tem uma resolução que estabelece tamanho grau de minúcias e detalhes
que nenhum Estado consegue cumprir essa exigência, Cria-se tal
detalhamento que, para elaborar o projeto e levar a cabo, é um parto.
Enviamos o projeto para construir um presídio em Rio Grande em agosto.
Em dezembro, quatro meses depois, o Depen nos retornou pedindo
alterações", afirmou.
Massa carcerária
A rebelião que aconteceu em Goiás está longe de ser um caso isolado. No
início do ano passado, casos ocorridos em prisões de Roraima, Amazonas e
Rio Grande do Norte deixaram 120 mortos. E nada indica que esses
episódios recorrentes de violência, em sua maioria causados por guerras
entre facções criminosas, deixarão de se repetir.
A população carcerária cresceu 700% em 25 anos, segundo dados do
Departamento Penitenciário Nacional (Depen). Hoje existem 727,5 mil
presos e um deficit de 336 mil vagas - superlotação generalizada que
dificulta o controle dos presos por agentes penitenciários e gera
condições degradantes nas prisões.
O Brasil é o terceiro país com a maior população carcerária do mundo,
apenas depois dos Estados Unidos e China, respectivamente. A Rússia vem
em quarto.
"Nesses três países (EUA, China e Rússia), a taxa de população
carcerária vem caindo, com a introdução de outras formas de
responsabilização alternativas ao encarceramento, como prestação de
serviços e multas", disse à BBC Brasil a coordenadora-geral de Promoção
da Cidadania do Departamento Penitenciário Nacional, Mara Fragapani
Barreto.
Nenhum comentário: