O desafio dos novos prefeitos na Saúde
O desafio dos novos prefeitos na Saúde
Com investimento federal
insuficiente, os municípios brasileiros financiam mais de 30% da Saúde
no país. Faltam recursos para a atenção básica
Era começo de tarde quando Aparecida
Lima da Silva bateu palmas diante do portão da casa azul. Do lado de
dentro, Alice de Oliveira gritou que ela esperasse um minuto – ia buscar
as chaves. Acostumada à visita, já imaginava do que se tratava. Desde
2014, Aparecida frequenta a casa onde Alice e o marido, Alfredo de
Oliveira, vivem há 40 anos, no município de Américo Brasiliense,
interior de São Paulo. O casal – ela com 68 anos e ele com 79 – vive a
três ruas de uma das Unidades Básicas de Saúde da cidade. Mas quem
reserva um momento para ouvir a história deles sai com a impressão de
que, para os dois, a saúde sempre esteve a muitos quilômetros. O
distanciamento tem efeitos visíveis – como a mão paralisada de Alfredo.
Ele nasceu na Bahia e conheceu Alice no interior de São Paulo. Criaram
sete filhos, trabalhando no campo. Nunca houve tempo para cuidar da
saúde. Oliveira passara anos cuidando da pressão arterial alta apenas
quando tinha uma crise e passava mal. Criou uma bomba-relógio, detonada
em três ocasiões. Sofreu três acidentes vasculares. O mais recente, há
cinco anos, paralisou sua mão direita.
Os problemas de Oliveira não surgiram por
simples desatenção dele com a própria saúde. Nem por falta de esforço
do município. No ano passado, o município de Américo Brasiliense aplicou
35% de sua receita na Saúde. É uma parcela alta. A lei determina que os
municípios reservem, no mínimo, 15% para o setor. Em valores absolutos,
em 2015, Américo aplicou na Saúde R$ 21 milhões, cerca de R$ 550 por
habitante. Rosana, a cidade paulista com melhor nota no acesso e
qualidade dos serviços públicos de saúde, investiu R$ 927 por habitante
no mesmo período. Cercada por canaviais, a 80 quilômetros de Ribeirão
Preto, Américo é uma cidade calma, de 40 mil habitantes, com casas
térreas e ruas vazias. A economia é fraca e a arrecadação de impostos
também. Depende, em grande parte, de uma solitária usina de álcool e
açúcar.
Como proporção da receita da prefeitura, o
investimento de Américo em Saúde é significativo. Mas insuficiente.
Américo lidera a lista dos 100 municípios do país que mais investem em
proporção à receita e têm os piores resultados no Índice de Desempenho
do Sistema Único de Saúde (IDSUS). Numa escala de 0 a 10, está junto com
municípios que tiveram notas entre 2,5 e 3,9 (o governo não divulga as
notas individuais de cada município). A média nacional é 5,47. O
diagnóstico do sistema de saúde de Américo Brasiliense revela sintomas
de uma doença que afeta todo o Brasil. Estamos pouco preparados para
oferecer cuidados básicos – e preciosos – à população. Eles ajudam a
prevenir quadros crônicos incapacitantes, como os acidentes vasculares
de Oliveira. Quadros assim exigem internação, deixam sequelas, são
devastadores para o cidadão e para as contas públicas, por exigir
cuidados caros. O caso de Oliveira poderia ter sido evitado se Aparecida
– a visitante regular de Oliveira e Alice, como contado no início da
reportagem – tivesse surgido antes.
O que a PEC 241 muda na Saúde?
Aparecida é uma das agentes
comunitárias de saúde que, há quatro anos, começaram a visitar Oliveira e
Alice. Agentes vão às casas entender a vida e os problemas dos
cidadãos, a fim de prevenir doenças ou evitar que se agravem. Uma
conversa com o casal bastou para que Aparecida e suas colegas
percebessem que Oliveira e Alice não conseguiam ler as letras apertadas
nas bulas e caixinhas de medicamentos. Aparecida resolveu o problema
reorganizando os medicamentos da casa. Colocou os comprimidos em
saquinhos identificados com desenhos. O remédio da manhã identificou com
um sol. O da hora do almoço com um prato de comida. Oliveira passou a
tomar os medicamentos na hora certa e com disciplina. Os saquinhos
desenhados poderiam ter ajudado a evitar o AVC – e a mão paralisada de
Oliveira. Um problema de Américo Brasiliense é que há poucas Aparecidas,
o suficiente para atender apenas um quinto da população. Apenas uma das
duas Unidades Básicas de Saúde (UBS) oferece esse tipo de
acompanhamento. Uma terceira está em construção.
SAÚDE EM CASA
Como resultado, o atendimento de
urgência drena uma fatia polpuda dos recursos da Saúde. “Em média, 30%
do meu gasto mensal vai para o pronto atendimento e 50% para a atenção
básica”, diz William Martins, um pediatra magro e sorridente, secretário
municipal de Saúde de Américo Brasiliense. Pelo único pronto-socorro da
cidade passam, mensalmente, entre 5 mil e 7 mil pessoas. Em seis meses,
o equivalente a toda a população da cidade passa pelo atendimento de
urgência. Na maioria das vezes, em busca de alívio para problemas que
poderiam ser prevenidos na assistência básica – como dores de coluna ou
crises de hipertensão. Um círculo vicioso consome recursos e a saúde da
população. Para rompê-lo, Américo – como todos os governos do país –
teria de trabalhar simultaneamente em três frentes: facilitar negócios, a
fim de estimular a atividade econômica e, como consequência, a
arrecadação; reorganizar o gasto público, a fim de investir o máximo
possível e com a máxima eficiência nas áreas fundamentais, como Saúde; e
aumentar a parcela do gasto com saúde preventiva. Com o atendimento de
emergência lotado, tendo de escolher entre tratar e prevenir, Américo
escolhe a primeira opção. Uma decisão tomada por muitos municípios.
O cenário ideal seria aumentar os
recursos da Saúde para fazer os dois: tratar e prevenir. No momento, não
dá. “Não consigo aumentar meu investimento”, diz Martins. “Se fizer
isso, faltará dinheiro para outras áreas.” O dilema é partilhado pelos
demais municípios. Em média, as cidades no país investem 23,2% das
receitas próprias no setor. “As cidades estão sobrecarregadas”, diz
Fernando Monti, diretor do Conselho Nacional de Secretarias Municipais
de Saúde (Conasems). Essa realidade dura aguarda a nova leva de
prefeitos que assumirá em janeiro.
Quando o SUS começou a ser
implementado no Brasil, no fim dos anos 1980, decidiu-se que o sistema
se basearia na prevenção. “Isso significava que a população seria
mapeada, para saber como a pessoa vivia e quais riscos tinha de
desenvolver algum problema”, diz Nelson dos Santos, professor da
Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp. A Constituição de 1988
determinou que esse tipo de cuidado seria garantido a todo brasileiro. E
que o financiamento do sistema era responsabilidade compartilhada entre
municípios, estados e União. Em 28 anos de SUS, no entanto, diminuiu a
parcela que o governo federal planejava, originalmente, destinar à
Saúde. Em 1988, a Constituição previa que fossem usados, na Saúde, 30%
do orçamento da Seguridade Social (formado pela soma de contribuições
como o PIS, Programa de Integração Social, e o Pasep, Programa de
Formação do Patrimônio do Servidor Público). Em 1992, durante o governo
Collor, essa determinação foi descumprida. Desde então, o percentual de
30% nunca foi aplicado. “Em 28 anos de SUS, nunca tivemos financiamento
adequado”, diz Arthur Chioro, professor da Universidade Federal de São
Paulo e ex-ministro da Saúde durante o governo Dilma Rousseff. A
participação federal no financiamento da saúde pública minguou. Em 1991,
a União respondia por 73% e os municípios por 12%. A população
aumentou e envelheceu, os gastos aumentaram, mas o investimento federal
não cresceu no mesmo ritmo. Em 2015, a União respondeu por 43% do
investimento público em saúde e os municípios por 31% .
O baixo investimento federal
compromete o sistema de saúde. O Brasil aplica na área o equivalente a
3,8% do PIB. É pouco, se comparado a outros países com sistemas
universais de saúde. É pouco também na comparação com vizinhos
latino-americanos. E quando a saúde falta, é da prefeitura que o cidadão
cobra. “Todo mundo me conhece”, diz Martins, o secretário de Saúde de
Américo. “E me procuram na rua, para reclamar.” Sem fechar o sorriso,
enumera os problemas com que lida. Dois têm lugar central. O primeiro
são as ordens judiciais que chegam a sua mesa, cobrando que o município
forneça tratamentos caros a poucas pessoas. “Por mês, gasto cerca de R$
25 mil com ordem judicial. É quanto eu usaria na compra de remédios para
a população toda”, diz Martins. O segundo problema é a dificuldade para
contratar profissionais. Faltam médicos no pronto-socorro: “Abri
concurso, mas ninguém quer trabalhar pelo valor que a gente pode pagar”,
afirma.
Apesar das dificuldades, Américo se
esforça para estruturar a atenção básica porque sabe que, no longo
prazo, é a alternativa mais barata. Compreender isso é importante para
os novos secretários municipais que assumirão a partir de 2017. Eles
trabalharão em um momento de receita baixa. Entidades como o Conasems
temem os possíveis efeitos da Proposta de Emenda Constitucional 241. Se
aprovada, a PEC mudará as regras que regulam o investimento federal em
saúde. A partir de 2018, há chances de o valor mínimo destinado (o
investimento de 2017 corrigido pela inflação) ser inferior àquele que
seria aplicado pelas regras atuais. O governo poderá destinar à Saúde
mais que o mínimo legal, mas não é a tradição: nos últimos 16 anos, só
aconteceu em 2013, 2014 e 2015.
Num cenário de grandes necessidades e
parcos recursos, os novos gestores terão de ser eficientes. Isso pode
significar mudar como o trabalho em saúde é organizado. “Precisamos
melhorar o jeito como a gestão do SUS se encontra com os usuários”, diz
Laura Macruz, da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São
Paulo. O atendimento preventivo é peça central para mudar o sistema de
saúde e a vida de pessoas como Manuelina Cassimiro, de 75 anos. Ela
chamou a atenção de Maria Lúcia Seixas, técnica de enfermagem de uma UBS
de Américo Brasiliense. “A Manuelina parecia muito fraca e muito
tristinha”, diz Maria Lúcia. Por três meses, Maria Lúcia foi à casa da
cidadã semanalmente. Descobriu que Manuelina não tomava com regularidade
o remédio para controlar seu hipotireoidismo, que pode causar fraqueza e
depressão. Maria Lúcia lhe ensinou. Manuelina ganhou saúde – e uma nova
amiga. “Eu ainda apareço para bater um papo”, diz Maria Lúcia. “Quando é
que a gente vai beber aquele chope, dona Manuelina?” (Fonte: Revista
Época)
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