Promototor de Justiça de Paripiranga,reconhecido em todo Brasil.

O guardião da sala de aula
Ex-trombadinha, promotor de Justiça
Foto:Jailson Rodrigues do Nascimento

Foto:Jailson Rodrigues do Nascimento


TIAGO18/07/2002 - 14:58 | EDIÇÃO Nº 215  CORDEIRO/´época
Paripiranga, a 398 quilômetros de Salvador, é uma cidade pacata, de 26.600 habitantes, que vive do plantio de feijão e soja. A delegacia local não é muito agitada – há no máximo quatro homicídios por ano, quase todos em brigas de botequim. Mas o promotor de Justiça da região, Gildásio Rizério de Amorim, tem trabalho de sobra. Em vez de traficantes, ladrões de banco ou contrabandistas, ele se bate com os pais das crianças em idade escolar. Polêmico e temido, Amorim chegou a Paripiranga em 1996 e descobriu que a maioria dos menores da região era analfabeta. Não teve dúvidas. Anunciou que processaria e prenderia os pais que não matriculassem os filhos, pelo crime de 'abandono intelectual', previsto no artigo 246 do Código Penal. Ninguém deu muita bola, e o promotor mostrou que não estava para brincadeiras. Pôs no xadrez o agricultor João Manoel dos Santos, analfabeto, que se recusava a matricular os filhos – Rosilda, Roseane e John Lennon, na ocasião com 11, 9 e 7 anos. A mãe das crianças, Joilda Santana Nascimento, também foi para a cadeia.
A história correu a cidade, dando início a uma avalanche de matrículas. Foi tamanha a procura que as escolas tiveram de alugar lojas e borracharias para usá-las como salas de aula. Hoje não há sequer uma criança em idade escolar fora do sistema de ensino. 'O exemplo do xadrez funcionou muito bem', diz Amorim.
EXEMPLO
'Depois que mandei um pai para a cadeia, todos aprenderam a lição'
Paripiranga, a 398 quilômetros de Salvador, é uma cidade pacata, de 26.600 habitantes, que vive do plantio de feijão e soja. A delegacia local não é muito agitada – há no máximo quatro homicídios por ano, quase todos em brigas de botequim. Mas o promotor de Justiça da região, Gildásio Rizério de Amorim, tem trabalho de sobra. Em vez de traficantes, ladrões de banco ou contrabandistas, ele se bate com os pais das crianças em idade escolar. Polêmico e temido, Amorim chegou a Paripiranga em 1996 e descobriu que a maioria dos menores da região era analfabeta. Não teve dúvidas. Anunciou que processaria e prenderia os pais que não matriculassem os filhos, pelo crime de 'abandono intelectual', previsto no artigo 246 do Código Penal. Ninguém deu muita bola, e o promotor mostrou que não estava para brincadeiras. Pôs no xadrez o agricultor João Manoel dos Santos, analfabeto, que se recusava a matricular os filhos – Rosilda, Roseane e John Lennon, na ocasião com 11, 9 e 7 anos. A mãe das crianças, Joilda Santana Nascimento, também foi para a cadeia.
A história correu a cidade, dando início a uma avalanche de matrículas. Foi tamanha a procura que as escolas tiveram de alugar lojas e borracharias para usá-las como salas de aula. Hoje não há sequer uma criança em idade escolar fora do sistema de ensino. 'O exemplo do xadrez funcionou muito bem', diz Amorim.
A obsessão do promotor com a educação da garotada tem uma explicação biográfica. Em Goiânia, onde passou a infância, ele era pobre e vivia como menino de rua, embora tivesse pai e mãe. Saía de casa com uma turma de trombadinhas e voltava à noite, depois de muita bagunça e alguns pequenos furtos. Aos 10 anos, era analfabeto, quando foi recolhido em flagrante ao Juizado de Menores por roubar um gibi do Tio Patinhas – que tentava entender apenas através dos desenhos. 'O juiz me deu a maior bronca da minha vida. Disse que eu tinha duas opções: o caminho do bem ou o do mal. Se eu quisesse viver na rua, seria um marginal sem futuro. Se estudasse, seria alguém na vida', conta. Saindo de lá, foi com a mãe a uma escola, matriculou-se e nunca mais deixou de estudar. Trabalhou como garçom até passar em um concurso da Polícia Federal e, quando já era policial, fez vestibular para Direito. Formou-se na Universidade Federal da Bahia, em 1991. Três anos depois, era promotor. Amorim não é casado, mas tem um filho com uma ex-namorada. O garoto, hoje com 14 anos, mora em Sergipe e está matriculado no melhor colégio da cidade. 'Ele nunca falta. Eu jogo duro, acompanho, vou à escola para saber como ele está', afirma.
'O ensino aqui não é de boa qualidade. Mas, para as crianças, é melhor estar nas salas de aula que nas ruas, assimilando maus costumes' 
SYLVIA ROMANO,
advogada trabalhista
Cuidado equivalente Amorim tem com os alunos das escolas de Paripiranga. Requisita, a cada dois meses, os diários de classe e as listas de alunos com mais de uma falta por mês. Seus pais são intimados a comparecer ao Fórum e explicar o que aconteceu. 'Não posso mais prender, mas posso conduzir até a delegacia, e esse constrangimento tem efeito pedagógico', diz ele. A nova Lei de Juizados Especiais impede que condenados a penas inferiores a dois anos fiquem na cadeia – e o artigo 246 prevê detenção de apenas um mês. Amorim, no entanto, continua fazendo pressão.
Em Paripiranga, o promotor está longe de ser uma unanimidade. Em 1999 a prefeitura chegou a lançar um abaixo-assinado para afastá-lo, mas a iniciativa não progrediu – ninguém queria comprar briga com ele. A atual gestão está prestes a apresentar uma reclamação formal ao Ministério Público Estadual. 'Os alunos têm medo dele. Vão à escola porque são obrigados, mas não se dedicam aos estudos', critica o secretário de Administração, Décio Oliveira. 'E os pais não podem dar uma bronca nos filhos porque as crianças dizem que vão denunciá-los ao promotor.' Para Oliveira, a evasão escolar zero é resultado de três programas voltados para a educação: o Bolsa Escola, federal, o Educar para Vencer, estadual, e o programa de reorganização das escolas rurais, criado pela prefeitura. O que o secretário não consegue explicar é por que as datas de aumento de matrículas não coincidem com esses programas, muito recentes, e sim com a campanha de Amorim.
Diretora de uma escola municipal com 709 alunos, Neusa dos Santos também faz restrições à atuação do promotor. 'Ele amedronta todo mundo', afirma ela. Um dos que tomaram bronca foi Éverton Alves de Carvalho, de 15 anos. Éverton trabalhava o dia inteiro numa lanchonete. 'Minha mãe queria que eu estudasse, mas eu preferia trabalhar para ter meu dinheiro', diz. O promotor foi acionado pela própria dona do estabelecimento e chamou o rapaz para uma conversa. Éverton entendeu e parou de trabalhar. 'Tá certo, agora sei que tenho de estudar... Mas quero mesmo é ser jogador de futebol', confessa. 
Com todas as crianças estudando, Amorim agora se prepara paraINVESTIR em outra frente. Recentemente descobriu que a cidade tem 13 vereadores, quando deveria ter apenas dez. O promotor pedirá a destituição dos três menos votados. Em tempo: Rosilda, Roseane e John Lennon, os filhos do agricultor que foi preso, estão agora na 4ª série. E não faltam às aulas.

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